VERSÃO ORIGINAL (OU MAIS PRÓXIMA) DO PAI NOSSO
- BINHA Around The World

- há 6 dias
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O Pai Nosso que você conhece veio de onde?
Do Evangelho de Mateus, capítulo 6: 9-13.
O Evangelho de Mateus foi escrito em grego antigo, no primeiro século, e Jesus falava aramaico, o dialeto galileu para ser mais específico.
O texto que Mateus escreveu é uma tradução. Do aramaico que Jesus falou para o grego que Mateus escreveu.
O Papa Damas, o primeiro, no ano 382, manda São Jerônimo traduzir tudo para o latim. Essa versão se chama vulgata. E é da vulgata que vieram todas as traduções modernas. Você reza uma tradução do latim, que veio do grego, que veio do aramaico.
Três filtros, três camadas de interpretação entre você e o que Jesus disse de verdade. E cada filtro tem um contexto. O tradutor do aramaico para o grego era um homem do primeiro século tentando fazer caber conceitos de uma tradição semítica milenar dentro de uma língua filosófica mediterrânea.
Jerônimo, no quarto século, era um monge brilhante mas trabalhando a mando de uma igreja que já tinha poder político, já tinha a agenda, já tinha inimigos que precisava combater com doutrina. Cada escolha de palavra carregava peso institucional.
Quando os primeiros missionários cristãos chegaram à Síria, ao norte do Iraque e ao sul da Índia, no segundo século, eles traduziram os evangelhos do grego direto para o aramaico local porque as pessoas de lá falavam aramaico como língua materna. Essa versão se chama pechita e como o aramaico da pechita pertence à mesma família linguística do aramaico Galileu que Jesus usava, ela preservou coisas que se perderam em todas as outras traduções. Nuances, imagens, conceitos que simplesmente não existiam em grego ou latim. A pechita não é idêntica ao original, mas é a versão que respira o mesmo ar.
Em 1990, um teólogo chamado Neil Douglas Clottes publicou um trabalho baseado justamente na pechita. Uma retradução do pai nosso a partir do aramaico original. O livro se chama Prayers of the Cosmos e o que ele encontrou não foi uma variação menor, foi uma oração completamente diferente, não no sentido de palavras trocadas, no sentido do que a oração é, o que ela faz, o que ela pede, qual é a relação que ela estabelece entre quem reza e o que está sendo invocado?
Na primeira linha:
Primeira parte:
Pai nosso que estáis no céu.
Em latim: paternóster qui es in caeles.
Em aramaico: abum de boaxmaia. Abum. Essa palavra não tem equivalente direto em português. A raiz é aba, que sim, pode ser traduzida como pai, no sentido relacional. É a mesma palavra que Jesus usa em marcos 14, no jardim do Gethsemane, quando ora antes de ser preso. Aba. Íntimo. Direto. Mas a forma abum expande isso. O sufixo um transforma a raiz numa ideia de emanação contínua, de algo que está sempre gerando, sempre nascendo para fora. Ela carrega a ideia de origem, de fonte, de princípio que gera sem parar. Não é um pai masculino sentado num trono julgando. É mais próximo de otu, fonte de tudo que existe, com conotações tanto paternas quanto maternas ao mesmo tempo. Uma presença que permeia, que origina, que sustenta, que não termina.
Segunda parte:
De Boa Shmaia.
Nós traduzimos como que estáis no céu, mas Shmaia em Aramaico não é um lugar geográfico lá em cima. Não é o paraíso no sentido de um endereço. É o espaço vibrante, o campo de onde tudo emerge. Shamaim em hebraico, palavra da mesma raiz, aparece logo na primeira linha do Gênesis. No princípio criou Deus, os céus e a terra.
Mas os rabinos sempre souberam que Shamaim não é o azul lá em cima. É a totalidade do existente. O universo como presença, não como lugar.
A tradução mais honesta seria algo como que vibras no espaço, que pulsa dentro de toda a criação, que está em tudo ao mesmo tempo. Você deixou de chamar um pai distante, que mora num lugar remoto chamado céu. Você está invocando uma presença que está aqui, agora, em tudo, incluindo em você. A oração começa não com uma distância a ser vencida, mas com uma proximidade a ser reconhecida. É uma invocação cósmica. É mais próximo de meditação do que de súplica.
Segunda linha,:
Santificado seja o teu nome.
Em latim, santificetur, nomen túm.
Em aramaico, netcadaschmak. Essa linha sofreu uma das distorções mais sutis de toda a oração, porque parece inocente. Claro que o nome de Deus é santo. Claro que devemos reconhecer isso. Mas olha o que o aramaico está realmente dizendo. Netcadasch não significa elogiar, glorificar, adorar no sentido de aplaudir alguém. A raiz cadasch ou, em aramaico e hebraico, significa separar para um propósito sagrado, tornar puro, criar condição de receptividade. É o mesmo radical de keduzá, santidade, que na tradição judaica não é um atributo que você descreve de fora. É uma qualidade que você cultiva ativamente por dentro. Netcadasch é um verbo de ação interior, não de louvor exterior. Ischmak, o nome em hebraico e aramaico, não é um rótulo que você cola numa coisa para identificá-la.
O nome de uma coisa é a essência viva dessa coisa. Quando Deus muda o nome de Abrão para Abraão, não está trocando uma etiqueta, está transformando a natureza daquele ser. Quando você fala o nome de algo em aramaico, você está evocando o que aquilo realmente é, no nível mais profundo.
Então a frase não é: eu declaro que o teu nome é digno de honra. É: eu estou criando espaço dentro de mim para que a tua essência se manifeste. É uma prática espiritual ativa. Você está se preparando para receber algo, não distribuindo elogios a uma divindade que precise de aprovação humana para se sentir valorizada.
A versão que você conhece é passiva. Você está descrevendo uma qualidade de Deus.
A versão aramaica é ativa. Você está fazendo algo dentro de si mesmo, a oração inteira já começou e você ainda não pediu nada. Está apenas se preparando, criando as condições.
Terceira linha:
Venha a nós o teu reino.
Em latim, adveniat regnum tomb.
Em aramaico, teitei malcutac. Essa linha é onde a Igreja Medieval construiu séculos de teologia sobre o reino de Deus como evento futuro, como promessa escatológica, como algo que virá no fim dos tempos, depois do juízo final. Toda uma arquitetura religiosa erguida sobre uma tradução. Porque malcutem no aramaico tem como raiz malca, que não carrega o sentido político de reino. Não é território. Não é hierarquia de poder. Não é monarquia divina. A raiz aponta para princípio criativo. Para a capacidade que faz existir o que não existia. É mais próximo de teu poder que gera. Tua força que cria. E teitei não é um futuro distante. É um presente urgente. Chega agora. Manifesta-se agora.
A tradução mais próxima seria: Que o teu poder criativo se manifeste agora, aqui, neste momento. Você não está esperando por um evento futuro que vai acontecer quando Deus decidir que chegou a hora. Você está chamando uma capacidade que já existe, que está disponível e afirmando que está aberto para ela se manifestar no presente. A oração não é sobre o que vai acontecer, é sobre o que pode acontecer agora se você se abrir para isso. A diferença entre esperar e abrir transforma completamente a postura de quem reza.
Quarta linha:
Aqui a pechita abre uma janela que o latim simplesmente fechou. O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
Em latim, panem nostrum cotidiano da Nobis Rodí.
Em Aramaico, Hauwlan, Lachma, Dsunkanan e Almana. Lachma é pão, sim. Na superfície é o pão que você come. Mas a raiz LHM, em Aramaico, significa também compreensão. Sabedoria. Alimento da alma. Em árabe, a mesma raiz dá a palavra larm, que significa carne, o sustento fundamental.
Em hebraico, Lèchen é pão. Mas também é o que mantém o ser vivo em todos os sentidos.
A palavra em Aramaico carrega os dois ao mesmo tempo, inseparáveis, sustento físico e sustento espiritual num único conceito, uma coisa só.
Sunkanan não é de cada dia, no sentido mecânico de cotidiano, de algo que se repete por hábito. A raiz aponta para aquilo de que necessitamos para crescer, o que nos expande, o que transforma quem somos. É uma palavra orientada para o futuro, para o movimento. Não para a mera repetição do que já existe.
A tradução mais fiel. Dá nos o alimento físico e espiritual que precisamos para crescer hoje. É um pedido integral, não fragmentado. Você não está separando o cuidado com o corpo do cuidado com a alma como se fossem duas contas distintas a pagar. Está reconhecendo que as duas formas de sustento vem da mesma fonte e são igualmente necessárias para que você seja inteiro. E está pedindo as duas agora para crescer, não só para sobreviver.
Quinta linha:
Essa é a que mais foi alterada. E os efeitos dessa alteração moldaram dois mil anos de culpa religiosa. Perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores.
Em latim: Demite noes. Debita a Nostra. Demite-os. Debitoribus Nostris.
Em Aramaico: A palavra kaubain que foi traduzida como dívidas e depois, especialmente nas tradições protestantes, como pecados, significa em Aramaico literalmente fios emaranhados. Não é metáfora jurídica. Não é metáfora moral. É metáfora testio. A imagem mental que o Aramaico evoca é concreta e visual. Fios de relação humana que ficaram enrolados uns nos outros complicados, presos, que não conseguem mais se mover livremente porque estão embarassados.
Pensa numa rede de pesca jogada de qualquer jeito no fundo do barco. Os fios se cruzam, formam nós, criam tensões que puxam em direções erradas. Não é que um fio é culpado pelo emaranhado é que os fios se entrelaçaram de um jeito que não serve mais a ninguém.
O Ashboklan não é perdoar no sentido de absolver alguém num tribunal moral. A raiz é soltar, deixar ir, desenredar, liberar o que estava preso para que possa voltar a se mover. A tradução real: solta os nossos fios emaranhados assim como nós soltamos os dos outros.
Você tirou a culpa de dentro da oração. Você tirou o pecado entendido como transgressão moral que precisa de absolvição. O que sobrou foi uma imagem de relações humanas que ficaram complicadas e de um pedido para que essas relações se tornem mais livres, mais fluidas, mais capazes de se mover.
É uma pessoa reconhecendo que está presa em padrões de relacionamento e pedindo ajuda para sair deles e assumindo a responsabilidade de fazer o mesmo pelos outros. Isso é completamente diferente da culpa. É consciência. É movimento. É saúde relacional pedida em oração.
A versão latina transformou isso numa confissão de culpa perante uma autoridade moral. A versão aramaica era um pedido de liberdade para todas as relações envolvidas.
Sexta linha:
Em latim: etnê nos inducas e intentacionem. O problema é tão óbvio que espanta que tenha durado 2.000 anos. A frase sugere que Deus nos induza a tentação, que existe a possibilidade de que Deus ativamente nos leve para um lugar de teste moral do qual podemos sair destruídos.
Os franceses já tinham mudado a versão deles em 2017 para não nos abandones à tentação.
Os italianos mudaram em 2020.
A tradução era um problema conhecido há séculos e ninguém tinha coragem de mexer porque isso implicaria a admitir que a versão oficial estava errada. Em aramaico a frase era o ela tarlan leneciuna. Tarlan é deixar entrar, permitir, abrir passagem para. Neciuna não é tentação moral. A raiz nici em aramaico aponta para esquecimento, para distração, para o estado em que você perde o fio do que importa. Perda de foco. Perda de consciência do propósito. O estado em que você se esquece de quem é.
A tradução literal: Não nos deixes entrar em esquecimento do nosso propósito. Tem a ver com presença, com não se perder no ruído do cotidiano ao ponto de esquecer o que você está fazendo aqui, quem você decidiu ser, o que importa de verdade. É um pedido por clareza interior. Por manutenção do foco espiritual. Não por proteção de um inimigo externo que quer te seduzir.
Dois mil anos de não nos induzas a tentação vieram de uma tradução equivocada de uma frase sobre não se distrair, sobre presença, sobre não adormecer espiritualmente.
Última linha:
E livrai-nos do mal.
Em latim: sed libera-nos a malo.
Essa linha construiu séculos de iconografia. O diabo de chifres, o maligno personalizado a força do mal como entidade consciente que opera no mundo e contra a qual você precisa de proteção divina ativa. Toda essa estrutura repousou em parte sobre a tradução desta linha. Bicha vem de uma raiz que significa o que está fora do tempo certo, o que está fora do alinhamento, o que está em dissonância com o ritmo natural das coisas. É quase uma palavra física, algo que vibra na frequência errada em relação ao todo.
A tradução mais honesta: liberta-nos do que está desalinhado.
Não é proteção contra um inimigo é um pedido de retorno ao alinhamento de sair do que está torto dentro de você, das suas relações, das suas escolhas, dos seus padrões, de voltar para dentro do fluxo do que é coerente com quem você é e com o que você invocou nas linhas anteriores.
A oração termina do mesmo jeito que começou com o movimento interior, com responsabilidade pessoal, com pedido de alinhamento, não de proteção de um perigo externo.
A versão aramaica do pai nosso, retraduzida da pechita soa assim:
Ó, tu fonte cósmica, que vibras no espaço, faz espaço dentro de mim para que a tua essência se manifeste, que o teu poder criativo chegue agora, aqui dá-nos o alimento físico e espiritual de que precisamos para crescer hoje, solta os nossos fios emaranhados assim como nós soltamos os dos outros. Não nos deixes entrar em esquecimento do nosso propósito, liberta-nos do que está desalinhado, abre um espaço interno para que uma presença que já está aqui se manifeste.
Cada linha é uma ação, cada linha pressupõe participação, você não é o receptor passivo de uma graça que pode ou não chegar, você é o agente que cria as condições para que algo aconteça!!!
Guardadas pelos cristãos da siria e do sul da india que nunca foram totalmente absorvidos pela igreja de roma, a versão aramaica não precisa de intermediário. Você abre o espaço, você solta os fios, você se mantém no propósito, você se alinha. É ação responsável sua executada em relação direta com o que você está invocando!!!


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